O Brasil enfrenta um movimento crescente de interiorização da violência, marcado pela expansão das facções criminosas para municípios de médio e pequeno porte. Pesquisas recentes indicam que o crime organizado, antes concentrado em grandes capitais, passou a atuar de forma mais ampla e articulada em diferentes regiões do país, ocupando territórios e disputando influência longe dos grandes centros urbanos.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Ipea mostram que, enquanto cidades como Fortaleza, São Luís e Goiânia reduziram suas taxas de homicídio em mais de 60% entre 2013 e 2023, municípios interioranos passaram a registrar índices de violência antes típicos de áreas metropolitanas. A ampliação da presença de grupos criminosos está diretamente relacionada ao domínio territorial, ao uso sistemático da força armada, à infiltração em setores da economia formal, ao controle de atividades ilícitas e à influência dentro do sistema prisional.
Cidades como Rio Claro, no interior de São Paulo, exemplificam essa mudança. Com cerca de 200 mil habitantes e localização estratégica próxima a grandes rodovias, o município se tornou alvo de disputas entre facções rivais, como PCC e Comando Vermelho. Na Bahia, o distanciamento geográfico da capital não impede que cidades como Juazeiro, a 500 km de Salvador, apresentem taxas de homicídio três vezes acima da média nacional. Na Amazônia Legal, o cenário também preocupa: o crime organizado já está presente em 45% dos municípios da região.
Especialistas alertam que o avanço das facções exige respostas que vão além do campo da segurança pública. É necessário considerar impactos em áreas como habitação, transporte, organização comunitária e até no processo eleitoral. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral tem adotado ações específicas para impedir interferências criminosas na disputa política, uma indicação de que o tema afeta diretamente a dinâmica das instituições democráticas.
O fenômeno da interiorização evidencia um processo complexo, em que grupos criminosos expandem influência, moldam comportamentos sociais e impõem regras locais, afetando o cotidiano de milhares de pessoas. O desafio agora é compreender esse avanço de forma integrada e estruturar políticas públicas capazes de conter e reverter a presença cada vez mais ampla dessas organizações no país.










