O Brasil registrou 20,1 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, segundo o Atlas da Violência 2026, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Foram 42.590 homicídios oficialmente contabilizados no ano, número que representa uma queda de 7,4% em relação a 2023 e o menor patamar em 11 anos.
Apesar da redução nacional, os dados revelam um cenário de profunda desigualdade regional. Enquanto o Amapá lidera com a maior taxa do país 45,7 homicídios por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, São Paulo apresenta o menor índice, com 6,6 homicídios por 100 mil habitantes, cerca de um terço da taxa do país.
Ao todo, 18 unidades da federação tiveram taxas acima da média nacional. As maiores foram registradas no Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3). Do outro lado do ranking, os estados com menores índices foram São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1) e Distrito Federal (10,3).
“Acomodação” do narcotráfico e gestão da segurança pública
Um dos fatores apontados pelos pesquisadores para explicar a queda é o que chamam de “acomodação” da guerra do narcotráfico. De acordo com Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência, o controle de rotas do tráfico gerou conflitos intensos entre 2016 e 2017, envolvendo as duas maiores facções do país PCC e Comando Vermelho e seus aliados regionais no Norte e Nordeste.
“A partir de 2018, os homicídios começam a cair e começa também um processo de acomodação. Uma guerra que se prolonga por muito tempo, sem um resultado claro, passa a ter custos econômicos inviáveis”, explica Cerqueira.
O pesquisador acrescenta que os estados por onde a rota do tráfico passava e onde desaguava nas capitais nordestinas foram exatamente os que tiveram redução dos homicídios, sobretudo a partir de 2018. “Juntando o fator demográfico, uma mudança qualitativa na gestão da segurança pública em alguns territórios e essa acomodação na grande guerra do narcotráfico, acho que eles conspiraram a favor da redução de mortes no Brasil”, completa.
Taxa de homicídios por estado (por 100 mil habitantes)
Taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos estados brasileiros (2024)
| Estado | Taxa | Estado | Taxa |
|---|---|---|---|
| Acre | 20,2 | Paraíba | 25,7 |
| Alagoas | 35,9 | Paraná | 18,6 |
| Amapá | 45,7 | Pernambuco | 37,3 |
| Amazonas | 32,2 | Piauí | 20,6 |
| Bahia | 40,9 | Rio de Janeiro | 20,4 |
| Ceará | 34,3 | Rio Grande do Norte | 23,5 |
| Distrito Federal | 10,3 | Rio Grande do Sul | 15,2 |
| Espírito Santo | 26,0 | Rondônia | 30,3 |
| Goiás | 18,4 | Roraima | 27,8 |
| Maranhão | 31,1 | Santa Catarina | 8,1 |
| Mato Grosso | 29,1 | São Paulo | 6,6 |
| Mato Grosso do Sul | 18,3 | Sergipe | 23,0 |
| Minas Gerais | 12,8 | Tocantins | 19,8 |
| Pará | 27,4 |
Número real pode ser maior
A lista acima considera os homicídios registrados oficialmente no Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. O próprio Atlas, no entanto, alerta que o número real de mortes violentas pode ser superior ao oficial.
Isso porque houve aumento das mortes violentas por causa indeterminada (MVCI) categoria utilizada quando não é possível identificar a motivação básica do óbito. Ao estimar os homicídios ocultos nesses registros, os pesquisadores calculam que o Brasil pode ter registrado 49.673 homicídios em 2024, com taxa de 23,4 mortes por 100 mil habitantes. Nesse cálculo, a queda em relação a 2023 seria de apenas 0,4%, e não de 7,4%. As MVCI são mortes violentas em que os estados não conseguiram determinar se ocorreram por acidente, suicídio ou homicídio uma lacuna que ainda desafia a precisão dos indicadores de segurança pública no país.










